12/08/2012

Capítulo 5: O Quarto de Jesse

Entraram na casa.
A sala era extraordinariamente grande. O único móvel visível era o sofá, com caixas de papelão empilhadas em cima. Era óbvio que tinham acabado mesmo de se mudar.
-Tome cuidado para não se perder no meio dessas coisas- alertou Jesse.- Não sei como mamãe e eu temos tantas coisas. Isso é muito estranho. Bem, a cozinha é aqui atrás. Pode jogar sua mochila aí, se quiser.
A cozinha estava um pouco mais arrumada que a sala. Jesse tirou dois copos do armário e despejou a limonada que estava na geladeira dentro de cada um deles.
Enquanto tomavam a limonada, trocaram olhares entre os copos. Vitor não pode evitar o sorriso, e tal atitude surpreendeu Jesse. Vitor disse:
-Casa bonita.
-Bonita por que você não viu meu quarto. Lá está parecendo a Alemanha, depois da Segunda Guerra Mundial. Tudo revirado, tudo transtornado. Você... você bem que poderia me dar uma mão, não?
Vitor terminou sua limonada, e encarando o outro, disse:
-É pra já, senhor.
Jesse sorriu, e terminando também sua limonada, rumou para seu quarto, com Vitor nos calcanhares.
Subiram para o andar de cima. O quarto de Jesse ficava no final do corredor. Entratam.
Realmente, aquele lugar estava bagunçado e precisava de um tapa no visual o mais rápido possível.
-Tem tempo pra você correr- disse Jesse, observando Vitor.
-Já estive em situações piores- disse Vitor, lançando um olhar geral no aposento.
-Bem, então vamos aproveitar sua disposição e vamos atacar essa bagunça. Só espere eu trocar de roupa, é bem rapidinho.
Jesse entrou no banheiro, que ficava dentro de seu próprio quarto, e começou à despir-se. Vitor não queria olhar, mas a porta estava aberta, e sua curiosidade sempre levava a melhor sobre ele. Observou, sem pudor e vergonha Jesse tirar a camisa, a calça, ficar apenas de cueca boxer, e depois colocar um shorts laranja e uma camisa regata que deixava visível seus braços esqueléticos e branquelos. Quando esse percebeu que a porta estava aberta, e que Vitor o espiava, ficou vermelho como os albinos ficam quando tomam muito sol.
De volta ao quarto, Vitor murmurou envergonhado:
-Desculpe. Essa minha curiosidade ainda vai me matar.
-Tudo bem- disse Jesse, sem graça.- Começamos, então?
-Só se for agora.
Eles trabalharam duro empilhando caixas e arrumando livros. Vitor montou o guarda-roupas de Jesse, enquanto esse ia empilhando suas próprias roupas dentro do móvel, depois de montado.Arrumaram a cama, e por fim, Vitor instalou o Computador de Jesse.
Estavam mortos de cansaço. Vitor sentou-se no chão e encostou a cabeça no colchão da cama. À essa altura, ele também despira a blusa de frio branca, e estava com uma camiseta regata, branca também, que deixava visível seu peitoral musculoso, suado pelo esforço da faxina no quarto. Jesse sentou-se no chão também, encostado na parede, defronte à Vitor. Ele o observava, enquanto Vitor olhava o tempo, através da janela.
-Credo, você nem parece cansado!- exclamou Jesse.- De onde vem tanta força?
Vitor o encarou e sorriu mais uma vez.
-Se eu contar, teria de te matar.
Ele se levantou. Jesse também. Ambos ficaram à poucos centímetros um do outro.
-Tenho de ir- disse Vitor, num tom meio sussurrante.
-Não vá. Fique mais- pediu Jesse, no mesmo tom.
-Não posso. Já passou da hora de eu ir pra casa.
Fora um esforço enorme pra Vitor desgrudar os olhos do olhar de Jesse, mas com muito custo o fez, virando-se e descendo as escadas. Jesse o acompanhou.
O dia já estava em seu fim, percebeu Vitor, quando abriu a porta da casa para seguir seu caminho. Virou-se para despedir-se de Jesse, e o encontrou à poucos centímetros atrás dele, olhando-o vivamente.
-Estou muito feliz- disse ele, com seu olhar fatal, um sorriso se crispando em seus lábios- Obrigado pela ajuda. Me salvou de um grande apuro. Fico te devendo.
-E eu irei cobrar!- disse Vitor.
Eles se encararam.
-Bem, até a escola então.
-Até mais, Vitor.
Jesse ficou fitando-o, até ele descer a rua e desaparecer por completo. Em seguida, fechou a porta, e fechando os olhos, suspirou.

Capítulo 4: Dando uma Mãozinha

O sinal para a hora da saída tocou. Vitor saiu primeiro, mas teve de voltar para entregar um formulário na secretaria. Depois de esperar por quinze minutos, já meio impaciente, ele finalmente conseguiu sair da escola.
Lá fora, encontrou Jesse, encostado num poste, com as mãos nos bolsos da calça. Ele não reconheceu Vitor à distância, mas sorriu quando este se aproximou.
-O que faz aqui parado?- Perguntou Vitor.
-Esperando o ônibus escolar. Já era pra ele ter aparecido.
-O ônibus, por acaso, seria amarelo?
-Por acaso seria- Disse o outro, desconfiado.
-Bom, é que ele já passou- Informou Vitor, displicente.- Deve ter saído há uns quinze minutos.
Jesse mirou e esquadrinhou todos os cantos da rua, sentindo uma pontada de desânimo.
-Como é que eu não vi essa joça passando?
-Não sei- disse Vitor, sorrindo. Seguiu-se um silêncio, que foi interrompido um minuto depois- Onde é que você mora?
Jesse hesitou antes de responder. Naturalmente, seria uma tolice dar seu endereço à alguém que acabara de conhecer. Mas, por outro lado, ficar panguando ali, naquele sol, esperando um ônibus imaginário chegar, seria uma grande tolice.
Por isso, ele abriu aquele sorriso sinistro que as crianças dão, quando querem algo dos adultos, e disse animado:
-Bem, moro na Rua French.
-Não fica muito longe daqui- disse Vitor-, e é caminho pra minha casa. Se quiser, posso te acompanhar.
-É claro! Vai ser ótimo!!- respondeu Jesse, sorridente.
Vitor o olhou com um olhar de surpresa e vergonha. Não era o tipo de resposta que estava acostumado. Porém, sorriu, e Jesse devolveu o sorriso meio envergonhado também.
-Vamos então?- perguntou Vitor.
Foram subindo a rua da escola, lado à lado.
Os dois tinham um porte físico atraente, diga-se de passagem. Vitor era visivelmente mais forte que Jesse. Jesse, por sua vez, possuía uma beleza delicada sem igual, um mesclado de fragilidade e encantamento nunca vistos naquela cidade antes.
À princípio, caminharam em silêncio. Então, Vitor começou uma conversa:
-E então, Jesse, por que veio morar aqui?
Jesse respirou fundo.
-Meus pais se separaram à dois meses. Meu pai foi embora para os EUA e queria me levar. Mas, preferi ficar com a minha mãe. Então, resolvemos nos mudar pra cá. E... bem, aqui estou eu, conversando com meu primeiro colega desse novo lugar.
-Sinto muito pelos seus pais...
-Tudo bem. Não gosto de pensar nisso. Acho até que a separação foi algo bom, o melhor que nos aconteceu. Meu pai... bem, ele era chato demais. Me fazia sofrer de um jeito esmagador...- Jesse calou-se, tentando esquecer seu passado sombrio com o pai.
Houve outro silêncio. Apenas o barulho do vento chicoteando as árvores era ouvido. Os cabelos de Jesse voavam, causando perda de ar para duas mocinhas ruivas, que vinham descendo a rua.
-E você, Vitor?- Perguntou Jesse, em tom de conversa- Sempre viveu por aqui?
-Sim. E mal posso ver a hora de cair fora desse lugar.
-Por quê? Aqui me pareceu tão tranquilo.
-E é exatamente por isso que quero ir embora- sorriu Vitor.
Uma terceira pausa na conversa, e então:
-E lá na sua cidade? Como era?
-Era legal até. Mas, bem, as lembranças de lá não são das melhores.
-Desculpe. Acho que estou sendo curioso demais.
-Não, imagine. Vai além da separação de meus pais, entende? Muito além...
-Eu entendo. Se quiser, posso ir mudo até a sua casa.
-Você promete?- perguntou Jesse, rindo.
-É claro- respondeu Vitor, rindo também.
Chegaram até a residência de Jesse. Vitor reparou que era grande, para duas pessoas apenas. Jesse convidou Vitor para entrar, depois de debater por meio segundo se era ou não uma boa idéia.
-Vamos-disse.- Vamos entrar e tomar um copo de limonada.
-Não, Jesse. Obrigado, mas tenho de ir...
-Ah, deixe disso, Vitor. Andamos bastante, com o calor que está fazendo, você deve estar com sede.
E então, houve o segundo toque de mãos. Jesse pegou na mão de Vitor para faze-lo entrar, e por uma fração de segundos, os dois se arrepiaram. Os olhos de ambos se encontraram, e Vitor encarou o chão, envergonhado. Ele aceitou.
-Tudo bem, mas só se for bem rapidinho.
-Não vai demorar nem um minuto!- prometeu Jesse, com cara de santo.