Entraram na casa.
A sala era extraordinariamente grande. O único móvel visível era o sofá, com caixas de papelão empilhadas em cima. Era óbvio que tinham acabado mesmo de se mudar.
-Tome cuidado para não se perder no meio dessas coisas- alertou Jesse.- Não sei como mamãe e eu temos tantas coisas. Isso é muito estranho. Bem, a cozinha é aqui atrás. Pode jogar sua mochila aí, se quiser.
A cozinha estava um pouco mais arrumada que a sala. Jesse tirou dois copos do armário e despejou a limonada que estava na geladeira dentro de cada um deles.
Enquanto tomavam a limonada, trocaram olhares entre os copos. Vitor não pode evitar o sorriso, e tal atitude surpreendeu Jesse. Vitor disse:
-Casa bonita.
-Bonita por que você não viu meu quarto. Lá está parecendo a Alemanha, depois da Segunda Guerra Mundial. Tudo revirado, tudo transtornado. Você... você bem que poderia me dar uma mão, não?
Vitor terminou sua limonada, e encarando o outro, disse:
-É pra já, senhor.
Jesse sorriu, e terminando também sua limonada, rumou para seu quarto, com Vitor nos calcanhares.
Subiram para o andar de cima. O quarto de Jesse ficava no final do corredor. Entratam.
Realmente, aquele lugar estava bagunçado e precisava de um tapa no visual o mais rápido possível.
-Tem tempo pra você correr- disse Jesse, observando Vitor.
-Já estive em situações piores- disse Vitor, lançando um olhar geral no aposento.
-Bem, então vamos aproveitar sua disposição e vamos atacar essa bagunça. Só espere eu trocar de roupa, é bem rapidinho.
Jesse entrou no banheiro, que ficava dentro de seu próprio quarto, e começou à despir-se. Vitor não queria olhar, mas a porta estava aberta, e sua curiosidade sempre levava a melhor sobre ele. Observou, sem pudor e vergonha Jesse tirar a camisa, a calça, ficar apenas de cueca boxer, e depois colocar um shorts laranja e uma camisa regata que deixava visível seus braços esqueléticos e branquelos. Quando esse percebeu que a porta estava aberta, e que Vitor o espiava, ficou vermelho como os albinos ficam quando tomam muito sol.
De volta ao quarto, Vitor murmurou envergonhado:
-Desculpe. Essa minha curiosidade ainda vai me matar.
-Tudo bem- disse Jesse, sem graça.- Começamos, então?
-Só se for agora.
Eles trabalharam duro empilhando caixas e arrumando livros. Vitor montou o guarda-roupas de Jesse, enquanto esse ia empilhando suas próprias roupas dentro do móvel, depois de montado.Arrumaram a cama, e por fim, Vitor instalou o Computador de Jesse.
Estavam mortos de cansaço. Vitor sentou-se no chão e encostou a cabeça no colchão da cama. À essa altura, ele também despira a blusa de frio branca, e estava com uma camiseta regata, branca também, que deixava visível seu peitoral musculoso, suado pelo esforço da faxina no quarto. Jesse sentou-se no chão também, encostado na parede, defronte à Vitor. Ele o observava, enquanto Vitor olhava o tempo, através da janela.
-Credo, você nem parece cansado!- exclamou Jesse.- De onde vem tanta força?
Vitor o encarou e sorriu mais uma vez.
-Se eu contar, teria de te matar.
Ele se levantou. Jesse também. Ambos ficaram à poucos centímetros um do outro.
-Tenho de ir- disse Vitor, num tom meio sussurrante.
-Não vá. Fique mais- pediu Jesse, no mesmo tom.
-Não posso. Já passou da hora de eu ir pra casa.
Fora um esforço enorme pra Vitor desgrudar os olhos do olhar de Jesse, mas com muito custo o fez, virando-se e descendo as escadas. Jesse o acompanhou.
O dia já estava em seu fim, percebeu Vitor, quando abriu a porta da casa para seguir seu caminho. Virou-se para despedir-se de Jesse, e o encontrou à poucos centímetros atrás dele, olhando-o vivamente.
-Estou muito feliz- disse ele, com seu olhar fatal, um sorriso se crispando em seus lábios- Obrigado pela ajuda. Me salvou de um grande apuro. Fico te devendo.
-E eu irei cobrar!- disse Vitor.
Eles se encararam.
-Bem, até a escola então.
-Até mais, Vitor.
Jesse ficou fitando-o, até ele descer a rua e desaparecer por completo. Em seguida, fechou a porta, e fechando os olhos, suspirou.
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