12/06/2011

Capítulo 2: O livro

Vitor, geralmente, esperava todos saírem da sala, para descer para o pátio da escola, à caminho dos gramados onde gostava de passar o intervalo, geralmente lendo Quadrinhos ou outro livro qualquer. Dessa vez, porem, não ficou sozinho na sala.
Jesse não tinha terminado de arrumar suas coisas, e parecia atrapalhado, na pressa em arrumar todo o material.
Vitor se levantou para sair, e ao passar pela porta, deixou cair um livro de capa preta. Quando estava descendo o primeiro lance de escadas, sentiu um toque frio nos ombros. Virando-se para trás, ele se deparou com Jesse segurando o livro.
-Deixou cair isso quando saiu da sala- disse ele.
Na capa do livro, em letras azul-escuras, estava escrito "Guia Prático da Recuperação em Doze Passos". Vitor pegou o livro com tanta pressa e força, que arrancou um anel que Jesse estava usando. Ele não queria que ninguem tivesse conhecimento que estava se recuperando de alguma coisa, não queria que o aluno novo lesse o título do livro. Uma idéia tola, a essa altura do campeonato. Quando percebeu que o anel veio junto, Vitor sentiu-se envergonhado, e corou.
-Obrigado- disse ele, numa voz cava e grave.- Me desculpe por isso, tome seu anel.
-Sem problemas- respondeu Jesse.- A julgar pela sua força, acho que devo ficar agradecido por ter arrancado o anel, e não meu dedo.
Vitor sorriu, e Jesse tambem.
-É excesso de força- disse Vitor.- É o que acontece quando não se briga com muita frequência. Fica com a força guardada sem serventia.
-Eu entendo.
Ficaram se encarando por um certo tempo. Isso era muito estranho. Qualquer um que se deparasse com aquela cena, acharia estranha. Vitor, o esquisitão, conversando com o aluno novo? Como assim?
-Você tem planos para se sentar com alguem, no intervalo? -perguntou Vitor.
-Ah, não- disse o outro.- Cheguei hoje, eh? Provavelmente terei de ver se me encaixo numa dessas, como é mesmo que dizem? "Mini-tribos"?
Vitor sorriu de novo.
-Te recomendo ficar longe das moças de rosa- disse ele, apontando com a cabeça para um grupinho de jovens que riam no final da escada.- Elas só sabem falar de cremes, rapazes, festas, rapazes, internet e mais rapazes.
-É exatamente o que eu estava pensando- disse Jesse com um ar de hilária preocupação, revirando os olhos.- Eu me pergunto, onde é que essas garotas de hoje em dia vão parar, se só esses artefatos que você mencionou na cabeça...
Vitor percebeu que ainda estava segurando o anel de Jesse.
-Ah, desculpe, seu anel...
E então, sem querer, as mãos de ambos se esbarraram. Vitor sentiu uma sensação curiosa, mediante ao toque. Um arrepio estranho prepassou seu corpo, e ficou formigando em seu peito. Jesse parecia não ter sentido nada, mas desviou os olhos de Vitor, quando esse encarou-o.
-Até mais então- falou Vitor.
-Até.

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